segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma nova amiga (Une nouvelle amie) - François Ozon


Amor, relacionamentos e sexualidade são temas recorrentes na filmografia de François Ozon. Desde seus primeiros filmes, como o divertido e criativo Gotas d´água em pedras escaldantes.


Passando pelo mais amadurecido Swimming pool, ou ainda opções mais densas como Amor em 5 tempos e Dentro da casa - já comentado aqui.


E também nos mais recentes como Jovem e bela - também comentado aqui.


Ozon gosta de abordar questões fora dos padrões, em que se questiona a moral vigente e se rompem barreiras.


Assim sedução, desejo, prostituição são material vasto e ilimitado para ele.


Em Uma nova amiga as indagações são sobre a questão de gênero.


Claire perde sua melhor amiga que morre ao dar a luz e começa a se relacionar com seu marido e algumas "crises" dele.

Uma temática interessante, mas que não investe tanto na psicologia. Fica um pouco em reviravoltas dramáticas e resulta um pouco raso.

Interessante, agradável, mas aquém do potencial da trama e do diretor.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Moonlight - Barry Jenkins


Primeiro longa do diretor americano Barry Jenkins, Moonlight ganhou o Oscar em 2017 com sua boa história e direção.

A história do garoto Little, de como ele busca referências para a formação de sua identidade (social, racial, sexual, emocional...).

O filme constrói um bom cenário e contexto para esse garoto. Questões como guetos, drogas, tráfico, vida social escolar, bullying etc adensam a trama.

E também os ótimos personagens. Sem precisar falar muito, têm dimensionalidade e profundidade.

O protagonista, que começa garoto, no limiar entre a fragilidade e a explosão de força, a independência e a carência nos cativa e nos aproxima de sua luz. 

E acompanhamos suas diferentes fases, com certa distância, mas sempre com muita ternura. 

Sem clichês, sem pieguices, de maneira simples e comovente.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Manchester à Beira Mar (Manchester by the Sea) - Keneth Lonergan


Supervalorizado, o terceiro longa de Keneth Lonergan, Manchester à Beira Mar, de fato se apresenta em uma contracorrente, buscando uma narrativa mais intimista, contida e delicada do que o padrão hollywoodiano.

Lonergan apresenta um protagonista (e também fotografia, arte etc) lacônico e frio.

E revela sua história aos poucos: começa pelo cotidiano burocrático e sem graça como faz-tudo de um condomínio, passa para o encontro com a família após a morte do irmão e só a partir daí a revelação do trauma de seu passado e o novo impasse diante do sobrinho agora órfão.

Esses elementos fazem da trama algo realmente interessante, entretanto a falta de adensamento psicológico e a falta de variantes dramáticas vão desgastanto e empobrecendo a narrativa.

Com uma história muito semelhante, Há tanto tempo que te amo, já comentado aqui, busca também a direção contida, mas para potencializar o drama e se aproximar profunda e primorosamente do espectador.

Em Manchester à Beira Mar não há muitas justificativas e, assim, não há muita empatia. Se por um lado é mérito não construir tudo como causa e consequência, apresentar personagens inconsequentes, sem anseios e com uma moral tão sem contornos torna o drama pálido.

A dor do protagonista está lá, mas ela não tem nuances ou variantes. Não há desespero, não há esperança, não incriminação e, assim, não há redenção.

E não é uma exclusividade do protagonista, os demais personagens, em sua maioria, também não contrastam com essa apatia, o que poderia tornar o filme mais verossímil e até dar mais força para a excentricidade do protagonista.

Há um sobrepor de cenas sem muitas curvas e sem crescente. E, assim, sem oscilações ou aproximações, corre-se o risco de se terminar o filme como se começa.


Para alguns funcionou, já para outros, decepcionou verdadeiramente.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Trumbo - Jay Roach


Os americanos são bons em se referirem a eles mesmos. Criaram um estilo de vida que divulgaram por todo o mundo e se auto-referenciam e se engrandecem a todo tempo.


Por isso o talento de Jay Roach para perceber uma história de potencial como a de Trumbo enriquece e diversifica essa narrativa da cultura hollywoodiana.

Ainda mais uma história sobre censura X liberdade de expressão, de temática tão atual.


Trumbo foi um dos roteiristas perseguidos pelo macarthismo. 


Banido e censurado, chegou a ser preso e sofreu uma reviravolta na vida, mas seu talento fez com que não perdesse espaço, nem fosse esquecido.

Através de seu trabalho árduo, inclusive com o uso de pseudônimos, seguiu na ativa e fez obras-primas destacadas até hoje no cinema mundial.

Interessante para se conhecer mais do contexto da Guerra Fria nos EUA, dos bastidores de Hollywood.


E da polarização entre diferentes tipos de artistas.

Clash - Mohamed Diab


O mundo está em polvorosa e recebemos as notícias de maneira muito restrita, por isso todas as fontes que nos mostrem outros lados e paisagens são sempre bem-vindos.
Como a primavera árabe vista pela ótica do egípcio Mohamed Diab em Clash.

Entretanto a expectativa sobre esse outro universo não se aprofunda. O filme se foca mais em cenas de ação durante os confrontos no Egito e não desenvolve muito nem a trama, nem personagens. 

Tudo se passa dentro de um camburão, quando pouco a pouco pessoas vão sendo detidas: documentaristas que registravam as manifestações, membros da irmandade muçulmana, partidários de Morsi, opositores do líder deposto, cristãos etc.

Numa narratida contida, mas forte e bem feita, as ações que vemos são bem construídas, mas os coflitos entre tantas pessoas diferentes, que funciona bem como um microcosmo do país não são aprofundadas.

As discussões ficam rasas e um pouco estereotipadas e de maneira geral falta conteúdo no filme, uma pena.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

As sufragistas (Suffragette) - Sarah Gavron


A diretora britânica Sarah Gavron aproveitou uma passagem muito interessante da história da Inglaterra para construir suas personagens e uma narrativa que diz respeito a todo o mundo e segue atual: os direitos das mulheres.

No início do século XX, com a intensificação da industrialização e participação cada vez mais ativa da mão de obra feminina, seus direitos e deveres começaram a ser questionados e cobrados.

E para reivindicar melhorias nas condições de vida e terem elas aprovadas como leis, fez com que uma das primeiras pautas fosse o direito ao voto.

E o filme coloca como protagonista uma mulher comum e não politizada e militante, exatamente para mostrar como a luta deveria envolver e afetar a todas.

A construção narrativa é bem clássica, tanto nos aspectos técnicos quanto nos dramatúrgicos: acompanhamoso cotidiano dessa mulher, seu envolvimento na luta quase por acaso, as dificuldades de seu dia-a-dia e sua busca por melhorias e conquente aproximação com o movimento sufragista.

A árdua jornada de trabalho, a defesa pelas colegas, o preconceito dos vizinhos, do marido, as consequências por seu envolvimento na luta - expulsão de casa, prisão, afastamento do filho...

E no final a conquista do voto feminino e a assustadora notícia de quão tarde esse direito foi conquistado no resto do mundo (ou que ainda está sendo).

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Joaquim - Marcelo Gomes


Marcelo Gomes faz parte do criativo grupo de cineastas pernambucanos, com colegas como Karim Aïnouz e Paulo Caldas.


Seu primeiro longa - Cinema, Aspirinas e Urubus - foi uma ótima estréia que repercutiu muito bem.

Em seguida fez Viajo porque preciso, volto porque te amo - já comentado aqui; Era uma vez eu, Verônica e o Homem das Multidões.

Seu trabalho mais recente, Joaquim, foi fruto de um convite de TVs européias, interessadas na história das colônias ibéricas.

Aqui, Marcelo buscou um olhar diferente para a história de Tiradentes, já retratada em outros filmes e séries, mas nunca antes reconstruída a partir de um ponto de vista mais intimista e humano.

O principal mérito de Marcelo é investigar como seria a vida de um alferes mineiro no século XVIII: qual seria seu cotidiano, suas ambições, suas aflições, seus afetos, desafetos e sonhos?

Mais do que um dos líderes da Inconfidência Mineira, o filme retrata Joaquim (e até por isso não se menciona muito seu sobrenome ou apelido), um homem sensível, suscetível a inquietações e observador do sistema e injustiças ao seu redor.

O filme faz um bom trabalho de registro de seu dia-a-dia, construção dos personagens, relato da situação política do cotidiano da população daquela região.

E traz também uma busca intimista em sua narrativa: câmera próxima e na mão, luz natural, cenas de improviso, interpretação naturalista, multiplicidade de línguas e sotaques.
(sem legenda - fiel à comunicação diversificada de uma cultura em formação)...

Nesse retrato, faltou talvez se aproximar mais das emoções dos personagens, nos fazer palpitar com seus amores, pulsar com suas indignações, sofrer com suas privações.

Somos espectadores distanciados, que vemos um lado íntimo e cotidiano da história, mas sem estarmos ao lado, sentindo esse dia-a-dia em nossas peles.

Vale pela viagem. No tempo, no espaço, na cultura, na história.

Uma história que não vemos começar no século XVIII e que tampouco termina, ela repercute até hoje: na precariedade, na injustiça, na corrupção, no machismo, na desigualdade, na mistura, nos amores, nas traições, nas revoltas, nas confidências e inconfidências também...